O ex-presidente Jânio Quadros aparece sempre como uma figura folclórica, quase ridícula. A ele são atribuídas duas medidas moralistas e uma catastrófica: proibiu os cassinos, o uso de biquínis em locais públicos e renunciou ao governo poucos meses depois de tomar posse. Assim ele é lembrado em documentários como Jango, de Silvio Tendler, e uma infinidade de pequenas reportagens de TV.
Desgosto e chacotas foi o que Jânio conseguiu em sua carreira meteórica. Talvez por isso, as três “façanhas”citadas acima sejam as únicas lembranças de sua curta experiência do executivo. Ontem, ao assistir Xingu, filme que relata a saga dos irmãos Villas-Bôas, descobri que a criação do Parque Nacional do Xingu, a maior e mais famosa reserva do gênero no mundo, só saiu graças à caneta de Jânio Quadros. Foi ele, quando presidente, que deu o ok aos Villas-Bôas. Claro que o mérito maior é dos irmãos sertanistas, mas se Jânio não quisesse o parque não teria existido.
Daí percebi a total falta de interesse e importância que se dá ao índio. Como que um sujeito, no longínquo ano de 1961, dá uma território do tamanho da Bélgica para abrigar, sei lá, quantas nações indígenas e hoje ninguém se atenta para isso? O homem só é lembrado como o reacionário do biquíni, o mané do cassino e o louco da renúncia.
Tudo bem que Jânio era populista, despreparado e golpista. Mas pelo amor de Deus! Ele era do Mato Grosso, região onde foi criado o parque. Tinha tudo para negar sua criação, afinal representava – mesmo tendo feito carreira em São Paulo- as elites regionais interessadas em terras e criação de gado. Vivia em uma sociedade predatória, subdesenvolvida, analfabeta, que estava longe de entender conceitos já formados na cabeça dos Villas-Bôas. Para mim, quando citado, Jânio deveria ser lembrado, em primeiro lugar, pela criação do Parque Nacional do Xingu. Só depois, por suas trapalhadas.
Estou me sentindo traído com essa mudança no Bom Dia Brasil. Esse negócio da Renata Vasconscellos ancorar o telejornal e o Chico Pinheiro ficar de coadjuvante não vai dar certo. Não estou jogando praga, mas acho que a audiência também vai chiar. Está tudo de cabeça para baixo. Até os intervalos perderam o sentido. As chamadas do Boston Medical Group – aquela empresa que garante que você ainda pode surpreender a sua parceira com uma bela ereção – agora nos dão a estranha sensação de estarmos sendo cobrados. Deixou de ser uma dica de amigo para se tornar uma cobrança da classe feminina. Quase vejo a Renata Vasconcellos como a mão na cintura me intimando: “Você já ligou para o Boston Medical Group?”
Desde 1983 esse programa acorda os brasileiros com um homem comandando sua bancada, afinal, ele sempre foi um telejornal feito por homens e para os homens. Não é exagero dizer que a verve masculina está no DNA do Bom Dia Brasil.
O barbudo Carlos Monforte foi o criador e primeiro âncora do programa, em 1983. Naquela época o BDB tinha uma pegada política mais forte, era meio azedo, cinza e carrancudo. A cara do homem brasileiro nos anos 80.
O modelo seguiu firme até o início do Plano Real, quando uma conversa entre o Monforte e Rubens Ricúpero, então ministro da Fazenda, foi capturada em um sinal perdido de antena parabólica e revelou os bastidores da relação poder e imprensa. O jornalista não tinha nada com aquilo, mas o chamado “Escândalo da Parabólica” acabou catapultando o apresentador para a Globo News.
No lugar de Monforte entrou Renato Machado. Era 1996 e a escolha caiu como uma luva. Renato tinha o temperamento perfeito para o Brasil de Fernando Henrique. Naqueles primeiros anos de Plano Real, inflação zero e abertura de mercado, o Bom Dia introduziu gastronomia, música clássica e um verniz de sofisticação que casava com a explosão de consumo de bens de luxo.
Ao lado do apresentador surgia uma figura feminina: Leilane Neubarth. A presença da ruiva, no entanto, não tirou a essência do programa: um telejornal para o homem assistir enquanto toma café e dá o nó da gravata.
Leilane, que nunca foi dondoca, mas jornalista experiente, entrou em choque com o âncora, que esperava dela apenas um papel decorativo. Ao constatar que Leilane era mais que um par de olhos azuis, o apresentador não pensou duas vezes e a afastou do programa. Em seu lugar escalou Renata Vasconcellos, a esposa que toda a audiência do Bom Dia sonhava: culta, doce, educada, fina e, acima de tudo, linda.
Na semana passada o impensável aconteceu. Renato Machado se transferiu para a Inglaterra e no lugar dele colocaram Renata Vasconcellos, a primeira mulher a ancorar o Bom Dia Brasil. Ela agora senta na cadeira do antecessor e, ao lado dela, está o experiente Chico Pinheiro. Pode ser um olhar preconceituoso, mas, para mim, o telejornal ficou esquisito, sem personalidade. Me dá pena ver o Chico Pinheiro de coadjuvante. É foda olhar para a Renata desfilar pelo estúdio, chamando as reportagens mais importantes, comandando as entrevistas. Tenho a sensação de que ele vai arrastar uma poltrona do lugar, mudar a decoração, pintar as paredes em tons de nude. Chico parece nos representar. Faz a figura do homem que casa com uma mulher mais nova e que faz tudo o que ela quer. Não segura o controle remoto e ainda é obrigado a assistir à novela da 8h. Tomara que Chico se acostume, porque eu não vou me acostumar não
Hoje acordei com uma edição sem noção do Bom Dia Brasil, segui no trânsito com uma análise desfocada da CBN e me deparei com uma manchete megalômana do Correio Braziliense. Só para registro: Correio Braziliense: “Depois da morte de Steve Jobs o mundo não será mais o mesmo”. G1: “Discurso de Jobs é comparável a do Dalai Lama, Ghandi e outros gurus”. CBN: “Steve Jobs revolucionou a relação de consumo e sustentabilidade”.
O Estado de São Paulo deu o único título pertinente diante dessa histeria que é a morte de Steve Jobs: “Morre um ícone da era digital”. É isso, nada mais que isso. Steve Jobs não é guru, não é filósofo, não é pensador, não é Deus. O mundo não gira em volta de iphones e tabletes. Tem coisas muito mais importantes na vida que os aplicativos da Apple.
O mundo não mudou por causa de Steve Jobs. Ele não reorientou os rumos da economia global, não salvou nenhuma população da miséria extrema e nem diminuiu a distância entre ricos e pobres. Seus produtos são excelentes. Facilitaram a vida de uma parcela significativa da população. Mas a grande maioria nem sente os efeitos de um novo sistema operacional. Alguém falou que Jobs inventou o conceito de que um computador pode ser um objeto desejado pelo consumidor. Tá. E daí? Isso é negócio, produto, consumo. A diferença é que é na área de tecnologia, um campo relativamente novo se comparado a outros negócios, como mineração e agropecuária. Tá bom, tá bom. O avanço das comunicações deixou o mundo menor. É, mas não foi a Apple que inventou a internet, nem o telefone. Ela só os deixou mais bonitos e eficientes.
Essa coisa de falar que ele revolucionou a relação de consumo e sustentabilidade eu também não entendo. Como que se pode associar sustentabilidade a uma empresa que lança um produto atrás do outro, cada um tirando o valor do seu antecessor? Em um ano e meio, Jobs lançou três modelos de ipod e dois de ipad. O que isso tem a ver com sustentabilidade? No mundo de hoje cidadania dá lugar a consumo. Só é cidadão aquele que tem poder de compra, que é consumidor. Quem não “TEM”, simplesmente não “É”. Acho que Jobs revolucionou dentro dentro dessa lógica. Ele foi mais longe que qualquer um nesse mercado de produtos que nos faz crer que somos alguém simplesmente por termos adquirido esse produto.
Não estou falando mal do cara. Viva Steve Jobs! Mas lá na área de atuação a que ele pertence: a dos negócio. Apple, o Facebook, o Google, Microsoft, são empresas que visam o lucro. Só isso. O resto é deslumbramento. Vamos dar a Jobs o que é de Jobs.
O filme Hoje, de Tata Amaral, foi o grande vencedor do 44º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Além do prêmio Candango de melhor filme, o longa levou o prêmio da crítica e as estatuetas de melhor direção de arte, melhor fotografia, melhor roteiro e de melhor atriz para Denise Fraga.
Foi a segunda vez que Tata venceu em Brasília. Em 1996 a diretora já havia faturado o prêmio principal por A hora da estrela. Hoje chegou ao Festival com uma história que retoma o tema da ditadura e e da anistia no Brasil. “É um filme atual, que trata de um passado que ainda não foi resolvido no Brasil”, disse Tata. “Meu desejo é que todos os arquivos do Brasil sejam abertos e contem outras histórias, com respeito”, disse a diretora.
Com a premiação, Tata espera que Hoje consiga uma carreira sólida nos cinemas. “Este prêmio vai permitir o lançamento deste filme. Com o Candango, Hoje vai ganhar o mundo”, disse a cineasta.
Ao subir ao palco para receber o prêmio de melhor atriz, Denise Fraga se mostrou emocionada. Num longo discurso de agradecimento, Denise disse ter orgulho de estar “na terra do cinema”. “É um trabalho muito importante para mim. É uma história muito importante de ser contada, com sensibilidade e delicadeza”, disse.
O filme Meu País, de André Ristum, foi o segundo longa mais premiado. Levou os prêmios de melhor montagem, melhor trilha sonora, melhor direção e de melhor ator para Rodrigo Santoro. “Estou tão nervoso quanto no dia da exibição do filme. Meu país fala de um país interior, que está dentro da gente”, disse o ator, qeu em 2001 levou o mesmo troféu por Bicho de sete cabeças.
O documentário As Hiper Mulheres, de Carlos Fausto, Leonardo Sette e Takumã Kuikuro, levou o prêmio de melhor som.
O prêmio de melhor atriz coadjuvante foi para Gilda Nomacce, por sua atuação no longa Trabalhar Cansa. O escolhido como melhor ator coadjuvante foi Ramon Vane, do longa O Homem que Não Dormia.
Mostra Brasília
A Mostra Brasília, competição paralela do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro promovida pela Câmara Legislativa do Distrito Federal contemplou quatro produções. Como melhor longa foi escolhido Cru, de Jimi Figueiredo. “Este prêmio é muito importante pra gente. O filme vai estar na semana que vem no Rio de Janeiro”, disse Jimi. Em segundo lugar, na categoria longa-metragem, ficou Sagrada Terra Especulada – A Luta Contra o Setor Noroeste, de Zé Furtado. Acompanhado da equipe, o diretor fez um longo discurso contra a especulação imobiliária e contra a invasão das terras indígenas no local. “Este filme e o prêmio vão servir como ferramenta de luta contra a criação deste Setor Noroeste”, avisou.
Já entre os curtas-metragens, os prêmios da Câmara Legislativa, conferidos somente a produções do DF, ficaram com Deus, de André Miranda, em primeiro lugar, e A arte de andar pelas ruas de Brasília, de Rafaela Camelo.
O melhor longa-metragem do DF recebeu R$ 75 mil e o 2º lugar com R$ 35 mil.
Confira a lista completa dos vencedores do 44º Festival de Brasília
Longa
Melhor filme: “Hoje”, de Tata Amaral
Melhor direção: André Ristum, por “Meu país”
Melhor ator: Rodrigo Santoro, por “Meu país”, de André Ristum
Melhor atriz: Denise Fraga por “Hoje”, de Tata Amaral
Melhor ator coadjuvante: Ramon Vane, por “O homem que não dormia”
Melhor atriz coadjuvante: Gilda Nomacce, por “Trabalhar cansa”
Melhor roteiro: “Hoje”, de Tata Amaral
Melhor fotografia: “Hoje”, de Tata Amaral
Melhor direção de arte: “Hoje”, de Tata Amaral
Melhor trilha sonora: “Meu país”, de André Ristum
Melhor som: “As hiper mulheres”, de Leonardo Sette e Takumã Kuikuro
Melhor montagem: “Meu país”, de André Ristum
Curtas
Melhor filme: “L”, de Thais Fujinaga
Melhor direção: Thais Fujinaga, diretora de “L”
Melhor ator: Horacio Camandulle por “De lá pra cá”, de Frederico Pinto
Melhor atriz: Eloina Duvoisin por “A Fábrica”, de Aly Muritiba
Melhor roteiro: “A Fábrica”, de Aly Muritiba
Melhor fotografia: “Imperfeito”, de Gui Campos
Melhor direção de arte: “Premonição”, de Pedro Abib
Melhor trilha sonora: “Ser tão cinzento”, de Henrique Dantas
Melhor som: “De lá pra cá”, de Frederico Pinto
Melhor montagem: “Ser tão cinzento”, de Henrique Dantas
Mostra Brasília – Prêmio concedido pela Câmara Legislativa do DF
Melhor filme de longa- 1º colocado: “Cru”, de Jimi Figueiredo
Melhor filme de longa- 2º colocado: “Sagrada terra especulada”,
Melhor filme de curta – 1º colocado: “Deus”, de André Miranda
Melhor filme de curta- 2º colocado: “A arte de andar pelas ruas de Brasília”,
Ontem, no Cine Brasília, surgiu um dos favoritos para o prêmio de Júri Popular. O longa Eu vou rifar meu coração, de Ana Rieper, fez uma das melhores noites do Festival ao apresentar um documentário que mergulha fundo no imaginário das chamadas canções bregas da Música Popular Brasileira. Rieper investigou a origem dessas músicas, seus ídolos e fãs.
Filmado no interior do nordeste e com uma pesquisa eficiente de personagens do cotidiano, o filme conseguiu emocionar e divertir o público do Cine Brasília. Mais do que isso, Eu vou rifar meu coração fez com a que a plateia participasse cantando, aplaudindo e rindo muito das histórias de amores impossíveis, mulheres e homens traídos. A trilha sonora, compostas de clássicos de Agnaldo Timóteo, Amado Batista, Wando, Odair José e Lindomar Castilho se encaixava perfeitamente com aos relatos dos entrevistados.
Divertido, romântico e sensível, o documentário não poderia ter outra acolhida senão a ovação do Cine Brasília. Foi, sem dúvida, a mais calorosa reação deste Festival. “Fiquei emocionada. O público reagiu bem a todas as passagens do filme. Acho que conseguimos passar nossa mensagem e, acima de tudo, divertir que veio assistir a Eu vou rifar seu coração. Fiquei muito angustiada também. Foi a primeira vez que a equipe assistiu ao filme na tela e vivi aquela coisa de ver o filho nascer ” , comemorou Rieper.
A noite foi mesmo de emoção e romantismo. Antes do Longa-metragem, outro filme, o curta brasiliense Um pouco de dois, de Danielle Araújo e Jackeline Salomão, também abordou a questão do amor, e dos relacionamentos em um trabalho que misturava ficção com depoimentos de casais reais. Apesar de ser simples a empatia do curta com o público foi direta e conquistou palmas efusivas dos espectadores.
Por Humberto Viana
Quem esperava uma sessão hermética e incompreensível na quarta noite do Festival de Cinema de Brasília, se surpreendeu com um dos melhores dias da mostra competitiva. A exibição do longa O Homem que não dormia e do curta-metragem Elogio da Graça, respectivamente de Edgard Navarro e Joel Pizzini, dois cineastas que não fazem concessão nem jogam para a plateia, fizeram o Cine Brasília reviver a vocação de espaço voltado para a experimentação e ousadia.
Antes dos filme serem projetados, porém, o público teve que enfrentar dois longos discursos dos diretores, ambos com conotação política. Joel chegou a ser vaiado ao elogiar o novo formato do Festival. Já Edgard, emocionado, se estendeu em uma longa apresentação da equipe e com a conclamação de união entre os diretores de todas as regiões do Brasil para o progresso do cinema nacional. A impaciência do público praticamente arrancou Navarro do palco.
Passadas as apresentações foi a vez dos espectadores se encantarem com a Elogio da Graça. Um filme com a cara de Joel Pizzini: pesquisa, montagem e homenagem. Na tela a lembrança de Arne Sucksdorff, fotógrafo sueco radicado no Brasil e um dos pioneiros na luta pela preservação ambiental. Com a narração de Graça Sucksdorff, brasileira, esposa de Arne e figura central no trabalho de produção dos documentários do marido, Joel faz uma narrativa simples e direta utilizando farto material de arquivo. Palmas efusivas retribuíram o belo documentário que não deve sair de mãos abanando neste Festival.
As explicações de Edgard Navarro sobe seu O Homem que não dormia, dava a entender que a noite seria fechada com um delírio ininteligível da alma do diretor baiano. “Meu último filme foi uma viagem pessoal freudiana. Agora faço o mesmo mergulho só que em perspectiva junguiana”, disse Navarro. Boa parte de quem estava no Cine Brasília entendeu a explicação quase como um alerta do que viria. Só faltou Navarro pedir paciência.
Na tela, porém, o que se viu foi narração original, dinâmica e sem excessos dos percursos da alma humana. Meio drama, meio comédia, O homem que não dormia possui belo trabalho de direção de arte e fotografia, mas ganha o público mesmo com os diálogos afiados e um elenco comprometido e talentoso. As imagens são forte e viscerais. Algumas chegam até a incomodar, como os mais de dez nus frontais, cenas de masturbação ou estupro. Mas tudo dentro da proposta de pintar a loucura e o desespero em um espaço permeado de lendas e símbolos da cultura popular.
O trabalhado foi acompanhado com atenção pelo público, que se divertiu e se sentiu aliviado com os destino dos cinco personagens principais. Ao final, uma boa acolhida, com palmas vigorosas e o sorriso triunfal de Edgard Navarro. “Uma maravilha! A sessão foi ótima! O público gostou, prestou atenção e se deixou levar pelo filme”, comemorou.
Alexia Caldeira
amacedo@jornaldacomunidade.com.br
A terceira noite da mostra competitiva do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro marcou o retorno da diretora paulista Tata Amaral ao evento, 15 anos após a exibição de Um céu de estrelas, recordista em premiação na competição e um dos marco na história do evento. Tata compete com Hoje, longa-metragem que tem no elenco Denise Fraga e Cesar Troncoso.
A expectativa para Hoje era enorme. O filme era o único totalmente inédito da mostra competitiva. Nem mesmo a diretora havia assistido a versão finalizada. Antes da exibição do filme, Denise expressou seu orgulho de ter participado do filme: “Eu sou muito grata à Tata pela oportunidade que ela me proporcionou de mergulhar neste universo e de fazer parte deste projeto. É um filme que trata de um tema muito importante e o faz de forma sutil mas ao mesmo tempo complexa. É a primeira vez que vamos assistir, mas todos que acompanharam a montagem se emocionaram muito e eu tenho certeza que o público vai adorar”.
O filme conta a história de uma ex-militante que compra um apartamento com dinheiro de indenização do governo brasileiro pelo desaparecimento do marido. Ao se mudar para o apartamento, a personagem descobre que o marido está vivo. Denise Fraga, um atriz mais conhecida por papéis cômicos, surpreendeu com sua performance com uma personagem de alta carga dramática e já se credencia como forte candidata ao prêmio de melhro atriz.
Ao final do filme o público aprovou a produção com aplausos entusiasmados. Tata Amaral se mostrou satisfeita com a acolhida e afirmou estar muito emocionada com o resultado do seu trabalho. “Estou muito feliz e muito emocionada. É a primeira vez que o filme é exibido e já veio com tudo. E é uma empreitada, porque fala de um assunto delicado. Comunicar isso da forma como fizemos é muito especial”, comentou a diretora as fim da sessão.
Além de Hoje, foram exibidos os curtas da mostra competitiva. “Quindins”, com direção de David Mussel e Giuliana Danza, baseado no conto homônimo de Luís Fernando Veríssimo, abriu a noite. A animação conta a história de uma mulher que deixa de comer quindins como promessa para salvar seu marido de uma enfermidade. O resultado agradou ao público, mas foi a animação “A Mala”, que, apesar de ter apenas 1m45s de duração, arrancou gargalhadas dos espectadoress com a forma divertida e descontraída com que mostrou o esforço de um senhor para conseguir pegar um ônibus.
Logo em seguida, começou a exibição dos curtas-metragens com o aguardado Premonição de Pedro Abib. O filme, um retrato da Salvador dos anos 50, conseguiu usar bem elementos de suspense para o público, que aprovou o filme e aplaudiu com entusiasmo, mesma a reação dirigida para De lá para Cá, de Frederico Pinto, que mostrou a dificuldade de convivência de um casal em Porto Alegre.
Uma montanha russa emocional. Assim pode ser resumido o segundo dia da mostra competitiva do Festival de Brasíla do Cinema Brasileiro. Os três filmes da mostra principal levaram o público a experimentar sensações tão distintas quanto intensas e garantiram uma sessão proveitosa para o público que lotou o Cine Brasília.
Primeiro os expectadores se divertiram com o filme Os Ovos de Dinossauro na Sala de Estar, de Rafael Urban. A história de amor da alemã Ragnhild Borgomanero, de 77 anos, que estudou fotografia digital para preservar a memória de seu falecido esposo, Guido. Graças a um senso de humor nada convencional, o filme arrancou risadas e aplausos em cena aberta.
Logo em seguida, as gargalhadas foram substituídas por um estado de tristeza profunda com o filme A Casa da Vó Neyde, de Caio Cavechini. O curta é o registro de um drama no seio da família do próprio diretor: a luta da sua avó para livrar o filho do crack. A plateia parece ter sido pega de surpresa pelo clima e as imagens fortes do documentário. Ao final, quase em estado de choque, o público aplaudiu com intensidade a produção paulista.
Na sequência, foi a vez do filme Trabalhar cansa, de Juliana Rojas e Marco Dutra, conduzir o público do Cine Brasília a uma viagem de suspense e tensão. Juliana e Marco fazem uma brincadeira eficiente com os gêneros do terror e até da comédia ao contar a história de um casal que vive experiências estranhas quando decidem abrir um pequeno mercado. Atento até o último momento, o público reagiu a cada estímulo do filme e deu o seu retorno em forma de palmas convincentes. “Estou feliz com nossa participação no Festival”, disse Marco Dutra. “O público entendeu a proposta do filme e se entregou a todas as nossas propostas de gênero. Acho que atingimos nosso objetivo”, comemorou.
Nesta quinta-feira (29), o público poderá acompanhar o longa-metragem “Hoje”, de Tata Amaral e os curtas Premonição, de Pedro Abib, e De lá pra cá, de Frederico Pinto. As sessões acontecem no Cine Brasília, na 106/107 sul, às 20h30 e 22h40, e também no Teatro de Sobradinho, Cinemark Taguatinga Shopping e Teatro Newton Rossi (Sesc Ceilândia) às 20h30. As projeções são simultâneas. NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 14 ANOS
Júlia Carneiro
jcarneiro@jornaldacomunidade.com.br
O primeiro dia da mostra competitiva do 44º Festival de Brasília despertou gargalhadas e aplausos em cena aberta durante a exibição dos cinco filmes na noite desta terça-feira (27), no Cine Brasília. A competição começou com uma das novidades desta edição: os filmes de animação, que trouxeram um clima leve e descontraído para dentro do cinema. Primeira leva de filmes foi apresentada a produção gaúcha do diretor Rodrigo John: Céu, Inferno e outras partes do corpo, que fala sobre um dia na vida de um cachorro. “Espero que possa despertar o cachorro que tem dentro de vocês,” introduziu Rodrigo. A segunda animação, Bomtempo, despertou gargalhadas ao mostrar as dificuldades de um homem para chegar ao trabalho.
Os dois curtas apresentados em seguida continham uma carga emocional completamente contrária. O Sertão Cinzento, de Henrique Dantas, fala sobre a censura na ditadura militar e revive a história de um cineasta, Olney, que foi perseguido e torturado pelos ideais retratados em seu filme. O segundo, A Fábrica de Aly Muritiba, conta uma história sobre um prisioneiro que convence a mãe a levar um celular para dentro da prisão para poder desejar parabéns para sua filha. “Não é um filme pra tocar, é um filme pra bater”, disse o diretor. Pela reação do público, as expectativas de Aly Muritiba foram alcançadas.
Na sequência foi exibido o longa-metragem As Hiper Mulheres. Uma produção conjunta entre o antropólogo Carlos Fausto, Leonardo Sette e o índio nascido no Xingu, Takumã Kuikuro. O filme retrata o maior ritual feminino do Alto Xingu (MT) que envolve a cantoria feita somente por uma mulher que está muito doente.
Antes da exibição o diretor Takumã Kuikuro falou da sua expectativa quanto o público de Brasília. “Cada público é diferente, tem um ambiente diferente e outro espirito. O que importa para mim não é ganhar a mostra, mas mostrar nossa cultura, porque tem muitos brancos que não entendem nossa vida. Esse filme representa o meu povo”, disse.
“Estamos muito felizes só de estar no festival e mostrar esse projeto. Talvez seja difícil dar a dimensão de passar o filme nesse cinema, nessa cidade. Esse trabalho começou com uma precariedade grande e pouco recurso. O filme foi montado com toda a equipe acampada na minha casa que não tem quarto pra todo mundo”, disse Carlos Fausto.
Durante a exibição de As Hiper Mulheres, o público se rendeu ao argumento e aprovou com palmas generosas e, muitas vezes, em cena aberta. Uma surpresa para quem esperava uma narrativa complicada e enfadonha. Um grupo de três indígenas sentados na primeira fila do Cine Brasília prestigiou a película. “Muito bom ver o profissionalismo dos cineastas e a visibilidade da cultura indígena”, disse Zelandes Alberto, membro de uma aldeia de Roraima
Hoje, às 20h30, no Cine Brasília (106/107 Sul) o segundo dia do festival apresentará as animações Moby Dick, de Alessandro Corrêa e 2004 de Edgard Paiva. Além dos curtas Ovos de Dinossauro na Sala de Estar de Rafael Urban e A Casa da Vó Neyde de Caio Cavechini. O longa-metragem que estará concorrendo nessa noite será o Trabalhar Cansa de Juliana Rojas e marcos Dutra com Helena Albergaria, Marat Descartes e Naloana Lima. Ingressos: R$ 6 e R$ 3 (meia). Exibição simultânea dos filmes no Teatro Sesc Newton Rossi, na QNN 27 de Ceilândia; no Teatro de Sobradinho (Q. 12); e no Cinemark Taguatinga Shopping (Q. 1). Ingressos: R$ 4 e R$ 2 (meia). Não recomendado para menores de 14 anos.
O fim da exigência de ineditismo para exibição de filmes no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro – mudança que desagradou muitos produtores locais – é considerado um avanço para aqueles que já fazem parte do circuito nacional de produção cinematográfica. Para a produtora Lucy Barreto, a nova regra, anunciada há quatro meses, é um progresso.
“Vivemos em um país continental no qual o fato de um filme ser repetido não quer dizer nada. Não há a menor razão para que os filmes sejam inéditos pois quem vem a Brasília não necessariamente viu o que passou no Festival de Gramado ou em outros. Parabenizo os organizadores pela mudança”, disse Lucy em entrevista à Agência Brasil.
Lucy acredita que o aumento no valor dos prêmios – outra mudança anunciada pelo governo do Distrito Federal – é o que pode tornar o festival de Brasília mais atraente e fazer com que os realizadores decidam lançar seus filmes na capital federal. “Com o prêmio maior, os realizadores vão passar a inscrever filmes inéditos com mais frequência. Por isso não acho necessária cláusula de ineditismo. O que se deve fazer é premiar bons filmes [independentemente de eles serem ou não inéditos]”.
O ator Chico Dias evitou polemizar sobre as condições da produção local e sobre as mudanças das regras, mas ressalvou que o Festival de Brasília é referência para a discussão estética do cinema brasileiro. “Não sei da realidade local nem entrei em detalhes sobre as regras. O que sei é que o Festival de Brasília é referência para a discussão estética brasileira e isso não deve mudar. O que se discute aqui ecoa [por todo o país]“, destacou.
As mudanças foram anunciadas pela Secretaria de Cultura do Distrito Federal há cerca de quatro meses. Além da não exigência de ineditismo das produções, outra mudança foi a antecipação da data do evento, que, até então, era o último do calendário de festivais do Brasil. Além disso, a secretaria aumentou o valor da premiação de R$ 80 mil para R$ 250 mil para o melhor longa-metragem. O valor equivale ao que é pago pelo Festival de Paulínia, no interior de São Paulo, um dos mais importantes do país.
As exibições da mostra competitiva foram descentralizadas. Antes, os filmes só eram exibidos no Cine Brasília. Já nesta edição, há programação também nas cidades de Ceilândia, Sobradinho, Guará e Taguatinga.



