O próximo sábado marca um ano antes das eleições de 2010 e é também a primeira das datas-chave do calendário eleitoral: último prazo de filiações para quem pretende ser candidato. Semana vai ser de muita movimentação na política brasiliense
Quando chegar o próximo sábado, 3 de outubro, estaremos a exato um ano para as eleições de 2010. O calendário do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) marca a data como uma das principais para a organização do pleito. É o dia limite no qual os candidatos a cargo eletivo devem estar com a filiação deferida em algum partido político. Também é a data na qual todas as legendas que pretendam participar das eleições de 2010 devem ter obtido registro de seus estatutos no Tribunal Superior Eleitoral e em que os pretensos candidatos devem ter domicílio eleitoral na circunscrição na qual devem concorrer.
Faltando poucos dias para o fim do prazo, a movimentação tende a se intensificar na política brasiliense, causando surpresa e perplexidade aos eleitores com os mais estranhos arranjos, alianças e negociações. Algumas dessas movimentações desenham coligações frankenstein porque podem ser formadas por pessoas que, até bem pouco tempo, eram oposição acirrada, declarada, ofensiva e tudo o mais, e ameaçam se juntar.
Roriz x Cristovam
Na última semana, um dos surpreendentes encontros foi o dos ex-governadores Joaquim Roriz (sem partido) e Cristovam Buarque (PDT), que protagonizaram uma das mais acirradas disputas políticas da última década. Roriz chegou a ser condenado pela Justiça, no ano de 2000, a indenizar Cristovam Buarque por ter chamado o adversário de assassino em debate transmitido pela TV Globo, em 1998, às vésperas da eleição. Durante o debate, Roriz teria dito que Cristovam “mandou derrubar barracos e assassinar pobres”, acrescentando que o adversário “derrama sangue”.
As acusações referiam-se à morte de cinco pessoas em uma desocupação promovida pelo governo, à época em que Cristovam ocupava o cargo. Na ocasião, o advogado de Roriz disse que seu cliente agiu em legítima defesa porque teria sido injuriado e humilhado pelo adversário.
Passado o tempo, Roriz e Cristovam se sentam para costurar acordos. Eles jantaram, segunda-feira (21), na casa de um amigo comum. Não selaram um pacto, mas ficou a possibilidade de entendimento numa composição com a candidatura de Ciro Gomes (PSB) para presidente, Roriz para governador e Cristovam para o Senado.
Segundo assessores de ambos os lados, a conversa girou em torno da sucessão presidencial. Ciro Gomes tem interesse em aliar o seu PSB ao PDT de Cristovam e para isso precisaria de um palanque forte no Distrito Federal. Esse palanque seria o de Roriz, que tem o interesse de voltar ao governo do DF. O ex-governador avalia que é um candidato imbatível nas classes C, D e E, assim como, a seu ver, o pedetista o é nas classes A e B.
PT x Roriz
A relação do PT com Joaquim Roriz sempre foi explosiva. A disputa vai do confronto de ideias ao xingamento. Poucos sabem, mas Roriz é fundador do Partido dos Trabalhadores em Goiás. E os petistas não perdoam o ex-governador que saiu do partido levando suas bandeiras sociais, como a garantia de moradia e a distribuição de renda aos mais pobres.
A convivência entre os dois lados sempre foi das piores, mas nas últimas semanas, para surpresa e espanto da população brasiliense, surgiu uma amizade entre Roriz e lideranças do petismo como o presidente da sigla, Chico Vigilante, e os governadoráveis Geraldo Magela e Agnelo Queiroz.
Magela teve duros embates na eleição de 2002 para o GDF. O petista perdeu por uma diferença mínima de 15 mil votos, a eleição foi para a Justiça e Roriz ganhou três anos depois no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Segundo o ex-ministro-chefe da casa Civil, José Dirceu, a decisão do TSE foi inacreditável. “Se nós olharmos depois que o Supremo cassou o mandato do (governadores) Cássio Cunha Lima (PB), do Jackson Lago (MA) e o mandato de Marcelo Miranda (TO), e tudo indica vai cassar o mandato do (Ivo) Cassol (RO), não ter cassado (o mandato de governador de) Joaquim Roriz é uma coisa assim que vai ficar para os anais da Justiça brasileira como um caso para ser analisado e estudado”, disse em recente entrevista ao Jornal da Comunidade.
Em 2006, foi a vez de Roriz enfrentar Agnelo Queiroz na disputa ao Senado. Nela, o PT também bateu pesado no ex-governador. Em 2010, não se espante se no primeiro turno ou no segundo, Roriz sirva de palanque para uma candidatura do PT.
PT x Cristovam
Enquanto adversários históricos se unem ou buscam acordo, aliados que se confundem na própria trajetória política trocam de lado e viram personagens antagônicos. O Partido dos Trabalhadores (PT) sempre foi uma das principais forças políticas do Distrito Federal, mas só conseguiu eleger um único governador: Cristovam Buarque, que foi senador pelo PT, ministro da Educação de Lula e hoje está no PDT.
Por ironia do destino, a cúpula do PT quer ver pelas costas aquele que já foi a sua maior liderança e referência. O próprio presidente Lula chamou Carlos Lupi, ministro do Trabalho e presidente nacional do PDT, para uma reunião em seu gabinete no Centro Cultural Banco do Brasil. Na conversa com Lupi, Lula pediu para que o PDT não lance Cristovam como candidato ao Senado no próximo ano. Todas as pesquisas de intenção de voto apliacadas até aqui no Distrito Federal apontam Cristovam como o candidato mais forte para uma vaga no Senado. Ele tem quase 30% do primeiro voto do eleitor (são duas vagas de senador) e pouco mais de 20% do segundo. Lula não se conforma com as críticas que Cristovam faz ao governo em discursos no Senado.
Se dependesse apenas das principais lideranças petistas de Brasília, Cristovam continuaria sendo o aliado de primeira hora, já que as amizades e afinidades foram conservadas. Mas, aqui, como no resto do país, o PT se rendeu ao lulismo e corta na própria carne.
Roriz x Rollemberg
Na terça-feira (22), o deputado federal e principal liderança do PSB no DF, Rodrigo Rollemberg tentou, sem êxito, um encontro de Ciro Gomes com Roriz para definir a aliança. Os socialistas pretendiam filiar Roriz na legenda, mas o ex-governador deve escolher um partido da sua penca de siglas nanicas que carrega debaixo do braço. Segundo assessores de Roriz, o encontro com Ciro deverá acontecer só após 3 de outubro. Um dia antes, ele deve anunciar com grande festa a sua filiação, provavelmente no PSC. A sigla é comandada no DF por Valério Neves, seu braço direito.
Curiosamente, Rollemberg foi outra vítima do estilo mais forte de fazer política do ex-governador. Em julho de 2002, Roriz estava em campanha pela reeleição ao Palácio do Buriti quando durante um almoço com um grupo de pastores em Ceilândia, insinuou que Rodrigo Rollemberg era usuário de maconha. “Se você olhar qualquer pesquisa que está aí, tá eu lá com 58% (aplausos da plateia). O PT tá com 17%. Aquele rapaz, aquele que gosta de maconha, como é que ele chama? (algumas pessoas gritam: Rollemberg!). É… o Rollemberg tá com 6%. Benedito tá com 5%. E tem o Carlos Alberto, que está com 1%”, disse Roriz.
Arruda x Roriz
A carreira política de José Roberto Arruda esteve atrelada em muitos momentos à do governo Joaquim Roriz, mas isso não impediu que ele sempre buscasse voo próprio e tivesse suas idas e vindas do rorizismo. Na primeira eleição de Roriz, Arruda foi chefe de gabinete do governador e ainda no primeiro ano de governo deixou este posto para assumir o cargo de secretário de Obras do Distrito Federal. Ele foi um dos responsáveis pela execução de uma das obras mais polêmicas do primeiro governo Roriz, o metrô de Brasília, que tempos depois teria sua obra embargada por suspeitas de irregularidades.
Em 1994, com o apoio de Joaquim Roriz, Arruda foi candidato a senador pelo PP, tendo logrado êxito na disputa. Em 1995 rompeu com seu antigo chefe e ingressou no PSDB. Longe de Roriz, em 1998, foi candidato ao Governo do Distrito Federal pela primeira vez, tendo sido derrotado por Joaquim Roriz e Cristovam Buarque ainda em primeiro turno e ficado em terceiro lugar.
No ano de 2001, ainda exercendo o mandato de senador e ocupando a liderança do governo no Senado, envolveu-se, juntamente com o então senador Antônio Carlos Magalhães (PFL), na violação do painel eletrônico do Senado Federal, utilizado na votação que cassou o mandato do ex-senador Luiz Estêvão. No início negou a acusação com um incisivo discurso na tribuna do Senado Federal, mas dias depois voltou à mesma tribuna para admitir a culpa e depois renunciar ao cargo, evitando assim o processo de cassação do seu mandato, que poderia torná-lo inelegível por aproximadamente 9 anos. Foi afastado do PSDB e ingressou no PFL, hoje Democratas. Após filiar-se ao PFL, depois do duro golpe político voltou às origens e aproximou-se outra vez de Roriz.
Foi um dos principais aliados de Roriz de 2002 a 2006, com um trabalho intenso de defesa do governo na Câmara dos Deputados até se lançar candidato a governador. Durante a campanha de 2006, uma gravação apresentada no horário político foi motivação para mais um rompimento dos dois. Nela, Roriz fazia comentários pejorativos ao então candidato Arruda, através de uma ligação telefônica com um candidato a deputado. Nunca mais a relação foi a mesma. Roriz foi eleito para o Senado, mas teve que renunciar logo em seguida enrolado por denúncias de um cheque milionário de origem mal-esclarecida, e seguiu para sua fazenda em Luziânia. Já Arruda assumiu o GDF com a prioridade de fazer a população esquecer os anos de Roriz. A bandeira da legalidade desfraldada por Arruda se contrapunha a todo o apoio que o ex-governador deu a invasões de terra.
Incomodado, Roriz juntou aqueles de seu grupo político que não conseguiram pendurar-se na máquina do GDF e voltou com força total. De incomodado, virou incômodo para o atual governador. As pesquisas colocam Arruda e Roriz disputando voto a voto e, mais uma vez, irão caminhar em lados opostos. Nos bastidores, correligionários de ambos negociam uma aliança.
Arruda x Filippelli
Outra aliança curiosa é a do governador José Roberto Arruda (DEM) com o deputado federal e presidente do PMDB-DF, Tadeu Filippelli. Os dois, até pouco tempo, eram ferrenhos adversários políticos. Muitos apostavam em inimizade pessoal, que na política não quer dizer muito e os exemplos estão ai. Em 2006, Filippelli foi o principal opositor à candidatura do atual governador dentro do grupo rorizista. Muitos colocam na sua conta o fato de Roriz não ter apoiado oficialmente Arruda, mesmo que em determinado momento da campanha ele tenha abandonado a sua candidata Maria de Lourdes Abadia (PSDB) e pedido votos para o democrata.
Durantes três anos, Filippelli foi oposição ao governo Arruda. Com as pazes feitas, carrega a promessa de ser o candidato a senador do Buritinga. Também é cotado para ser o vice na chapa de Arruda em 2010, passando a disputa do Senado para o atual vice-governador Paulo Octávio. Devido à aproximação, vai ser muito cobrado por rorizistas históricos.
Roriz x Filippelli
A briga dos aliados Joaquim Roriz e Tadeu Filippelli, que culminou com a saída do primeiro do PMDB, teve muitas consequências. Há poucos meses ninguém acreditaria que isso pudesse acontecer, tamanha a ligação entre os dois. O rompimento foi feito em três etapas: familiar, empresarial e político.
A primeira foi o fim do casamento de Filippelli com a sobrinha de Roriz, que ocasionou o rompimento familiar. A segunda etapa – e consequência da primeira -, foi a saída do deputado da frente de alguns negócios da família Roriz, passando parte da atribuição a Manoel Neto, casado com a deputada distrital Jaqueline Roriz (PMN) e filha do ex-governador.
Os dois primeiros fatos foram determinantes para o rompimento final: o político. Roriz cometeu um erro grave em sua carreira ao adotar o velho estilo de fazer política em gabinetes ou da varanda de casa, esquecendo a organização partidária. Quem sempre esteve à frente da máquina partidária foi Filippelli. Com o partido nas mãos, veio o troco.
Fique por dentro
• O calendário eleitoral de 2010 estabelece que o primeiro turno das eleições do próximo ano será realizado no dia 3 de outubro, um domingo.
• No ano que vem serão escolhidos os novos governadores, senadores e deputados federais e estaduais e o novo presidente da República.
• Caso haja necessidade de segundo turno, o TSE estabeleceu a data de 31 de outubro.
• O segundo turno ocorre se o candidato a um dos cargos majoritários – presidente da República e governadores de estado – não obtiver a maioria absoluta dos votos (50%+1). Neste caso, os dois mais votados participam da nova votação.
• O novo calendário define os prazos que partidos, pré-candidatos e eleitores devem obedecer com vistas às eleições do ano que vem.
• A mudança de filiação partidária e de domicílio eleitoral, por exemplo, só podem ser feitas até o dia 3 de outubro deste ano.
• Já as datas para convenções partidárias e a escolha de candidatos devem acontecer entre 10 e 30 de junho de 2010 e o registro das candidaturas até o dia 5 de julho do próximo ano.
• A propaganda eleitoral começa no dia seguinte, 6 de julho.
• O horário eleitoral gratuito do primeiro turno no rádio e na televisão vai de17 de agosto a 30 de setembro.
• No segundo turno, se houver, a propaganda começa em 16 de outubro.
• As pesquisas de tendência de voto devem ser registradas a partir de 1º de janeiro.
• O dia 5 de maio será o último dia para solicitar inscrição de eleitor ou transferência de seção eleitoral.
• Em caso de perda do título, a segunda via do documento deve ser requerida até 23 de setembro de 2010.
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Arruda, Eleições 2010, Filippelli, PT, Roriz