Mesmo a contragosto de seus opositores históricos, Joaquim Roriz (PSC) tem muito do presidente Lula. O ex-governador é, inclusive, fundador do PT. Isso aconteceu há uns 20 anos lá em Goiás. Na época, ele e seu grupo político tiveram que deixar a sigla porque o PT achava que só poderia ter filiado ligado ao proletariado e não poderia aceitar ninguém da “elite burguesa”. Hoje, os tempos mudaram e o PT também. E como mudaram.
Roriz não era burguês, mas também não era pobre e nem proletário. Pertencia a uma elite agrária. Filho de uma família proprietária de terras em Luziânia (GO), subiu na vida depois de entrar para a política. Mas, antes, conseguiu dinheiro com a venda de muitas carradas de areia (mesmo com poucas viagens) durante a construção de Brasília. Com ajuda, claro, dos apontadores.
Roriz deixou o PT, mas levou consigo as principais bandeiras do partido, o que revolta até hoje o petismo brasiliense. Habitação e assistência social foram as principais. O ex-governador distribuiu lotes, criou cidades, inchou o Distrito Federal. Também mandou entregar pão e leite nas casas dessas famílias, além de cartões para compra de alimentos. O povo o ama por tudo isso. Amor que é declarado abertamente nas ruas de muitas cidades como Estrutural, Itapoã, Arapoanga e Samambaia.
É uma tática infalível e que quase nunca falha. Ao invés de ensinar a pescar, é melhor dar o peixe, deixando o eleitor dependente do governante e nunca caminhar com as próprias pernas. Pois, assim, ele sempre vai querer e precisar mais. Todo programa social deve ter uma contrapartida. E qual é ela? O voto, lógico. O eleitor fica no cabresto. E, se aparecer outro candidato forte numa campanha, é só amedrontar o pobre do cidadão dizendo que se o adversário for eleito vai acabar com o Bolsa-Família, Bolsa-Escola, pão e leite, bolsa-isso e bolsa-aquilo. Na matemática política, quanto maior a quantidade de pobres, melhor. Mais bolsa a ser distribuída, mais voto a ser contabilizado. Político profissional não quer que o povo suba na vida, consiga emprego decente para viver com dignidade.
Assim como Roriz, podemos dizer que Lula é um ex-petista ainda filiado. Há muito ele se desligou do discurso do partido e partiu para aquilo que a maioria dos políticos almeja: poder. Para conseguir, tem que ganhar a eleição, fazendo os mais arrepiantes acordos e usando de todas as artimanhas para convencer o eleitor.
Uma dessas artimanhas que tanto Roriz quanto Lula dominam muito bem é o do discurso populista, falar a língua do povo, abraçar o povo, tentar o máximo ser semelhante a ele. Mesmo que para isso tenha que engolir muitos “S” e colocar outras letras onde não caberiam.
É inegável a popularidade de Roriz e Lula. E eles trabalharam muito por isso. O povo gosta deles. Tem gratidão pelo que fizeram. Seja pela conquista da casa própria através da doação de um lote, ou por uma ajuda financeira mensal através de um cartão magnético. Lula não pode ser candidato em 2010, mas dificilmente conseguirá transferir a quantidade de votos suficientes para a sua escolhida, a ministra Dilma Rousseff. A transferência de votos também é uma pedra no sapato do campeoníssimo de eleições no DF. Quando teve que apoiar algum candidato, Roriz deu com os burros n’água. Foi assim com Valmir Campelo, em 1994, e com Maria Abadia, em 2006. Quando estão na linha de frente, Roriz e Lula estão sempre entre os favoritos.
Os dois também sofreram com sucessivos escândalos. Lula enfrentou o mensalão de peito aberto e braço dado com aliados como Sarney, Jader, Renan e Collor. Ainda foi golpeado por aloprados, sanguessugas, vampiros e cuecões. A aquarela de Roriz também andou desbotada. A partilha do cheque o fez deixar o Senado. Muitos achavam que Roriz havia sido crucificado, morto e sepultado politicamente. Mas, Roriz ressuscitou ao terceiro ano e ressurge com força para 2010 tirando o sono do governador Arruda e do PT. Petistas podem, novamente, amargar uma humilhante terceira posição.
O interessante é que por trás de tanta semelhança existiu uma luta com golpes abaixo da cintura entre Roriz e seu ex-partido, o PT. Só depois de 20 anos é que os dois lados conseguiram sentar civilizadamente à mesa para conversar sobre política, mesmo sob protesto de alguns companheiros. É possível – e deixou de ser inacreditável -, que Roriz e PT possam vir a estar juntos em 2010. E por que não no mesmo palanque junto com Lula e Dilma? Seria a glória de uma clientela de programas sociais que tem adoração por dois homens, mas o coração partido de vê-los em lados opostos.
Política
Artigo, Eleições 2010, Roriz