Imagens mostram leitos vazios e pacientes nos corredores do hospital de Sobradinho, no DF (Foto: Arquivo pessoal)

Imagens mostram leitos vazios e pacientes nos corredores do hospital de Sobradinho, no DF

Sindicato diz que ausências são por falta de pagamento de horas extras. Houve reclamações em emergências de unidades da Asa Norte e Ceilândia.

Raquel Morais, do G1 DF – A secretária de Saúde, Marília Cunha, disse nesta segunda-feira (17) que a corregedoria da pasta começou a investigar os atestados entregues por médicos escalados para plantões na rede pública do Distrito Federal neste final de semana. Pacientes relataram dificuldades para conseguir atendimento neste final de semana. Por telefone, o presidente do Sindicato dos Médicos, Gutemberg Fialho, afirmou que os profissionais não teriam comparecido por não terem recebido as horas extras de agosto.

“São médicos jovens, já apuramos, e, assim, nunca se investiu tanto em saúde quanto no governo Agnelo Queiroz. O hospital está totalmente reformado, equipamentos novos, tem medicamento, tem material médico-hospitalar. Não justifica. Nós vamos abrir, sim, sindicância e apurar os fatos. Não é possível mais um médico ficar dando atestado médico para outro médico”, disse Marília.

Uma equipe da corregedoria esteve no hospital da Asa Norte no início da manhã para buscar os atestados. A secretaria afirmou que ainda não tem uma estimativa do número de documentos a serem investigados.

“Vamos investigar os atestados, vamos questionar o conselho de medicina para tomar providência. O que aconteceu não é grave, é gravíssimo. Eu tinha uma necessidade de três médicos. Três clínicos cobririam muito bem. Colocamos mais um para ficar com uma folga. Estávamos tranquilos. E os quatro vão e faltam?”, declarou.

As reportagens do G1 e da TV Globo estiveram em hospitais da rede pública e constataram o problema. No sábado, nenhum médico da área de clínica geral havia aparecido no pronto-socorro da Asa Norte para dar início às consultas até as 15h30. O próprio diretor da unidade foi ao local para ajudar no atendimento.

Ainda no sábado, um agente penitenciário de 30 anos que não quis se identificar registrou cenas que classificou como “descaso” no Hospital Regional de Sobradinho. Duas fotos mostram pacientes idosos em macas improvisadas no corredor da emergência, e, em outras duas imagens, é possível ver leitos desocupados que, segundo ele, estavam em salas de emergência a poucos metros de distância.

“Meu pai tem 78 anos, levei ele ao hospital com um quadro de AVC. Ele foi atendido, recebeu medicação na sexta-feira, mas passou dois dias no corredor da emergência”, contou.

No domingo, não havia pediatras na UPA de Ceilândia e pacientes e funcionários afirmavam que, dos quatro médicos escalados no hospital regional, apenas um atendia. Um homem que acompanhou a mulher grávida à unidade reclamou da situação. “Minha esposa está sentindo dor, está sangrando direto”, afirmou.

Segundo Fialho, os médicos têm ficado doentes por causa das condições de trabalho – carga horária extensa e falta de estrutura. Ele também criticou a fala da secretária a respeito dos atestados médicos, dizendo que a pasta deve primeiro investigar e comprovar a denúncia para depois dar a declaração.

Segundo a secretária de Saúde, o conselho regional da categoria vai ser acionado para auxiliar na investigação. Se constatadas as irregularidades, os médicos podem ser punidos até com demissão.

Descaso -

A contadora Sarita Lemos, de 36 anos, foi ao hospital da Asa Norte no início da tarde de sábado para acompanhar o vizinho Antônio Lins, de 93 anos, que apresentava falta de ar, tosse e tontura. Depois de uma hora na sala de espera, ela ainda não tinha recebido nenhuma informação.

“É um desrespeito incrível, não quiseram nem fazer a ficha médica. Não passaram nenhuma informação, não deram prazos. Estávamos saindo daqui para o Hospital de Base, mas fomos desaconselhados por outra pessoa doente, que foi para lá e teve que voltar”, afirmou.

Sarita disse ter ouvido dos funcionários na recepção que o motivo para a ausência de médicos era a falta de pagamento. “Me perguntaram, na cara dura: ‘você trabalharia de graça num sábado?’ Eles não dizem que está vazio, e sim que não vão atender. E se não fazem a ficha de chegada, não há como provar que a gente veio aqui”, declarou.

Os servidores no local disseram à reportagem do G1 que não havia médicos parados dentro da unidade. Um recepcionista que preferiu não se identificar afirmou que parte da equipe não havia comparecido e que, por isso, não “adiantaria nada” preencher fichas de pacientes.

Horas extras - Segundo o sindicato, o pagamento de horas extras está comprometido desde setembro, quando começou a ser feito em folha suplementar e não no contracheque normal. A insegurança teria aumentado, afirma a organização, com o atraso no pagamento deste mês (relativo a setembro) e a proximidade do fim da gestão de Agnelo Queiroz.

A entidade de classe cita como “agravante” um decreto assinado pelo governador no último dia 28, que proíbe despesas adicionais para os órgãos de governo.

Marília diz que o medo dos servidores de não receber os pagamentos em dia não se justifica, porque o governo já ofereceu garantias. “Estamos tomando todas as precauções para que não falte dinheiro em caixa. Os coordenadores das regionais estão cientes, a equipe de transição está ciente.”

“O prazo foi fixado para o dia 24 de novembro, e o dinheiro vai ser depositado. São R$ 22 milhões em horas extras, e vão ser pagos normalmente como sempre foram pagos nos últimos 20 anos”, afirma.

A secretária afirma que o governo contratou 17 mil servidores para a saúde nos últimos quatro anos, mas diz reconhecer que ainda há um déficit no setor. “Temos vagas em aberto, e é por isso que eu preciso pagar hora extra. Só em setembro, 200 pediatras se aposentaram na rede pública.”

Na sexta-feira (14), o governo também negou que deixaria dívidas na área de educação. O risco de um “calote” foi levantado pela equipe de transição do governador eleito, Rodrigo Rollemberg (PSB), em relação ao pagamento de salários, abonos e férias dos professores entre dezembro e janeiro.

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