A disputa foi acirrada, mas, como previsto, o ex-comunista venceu Geraldo Magela nas prévias que o PT organizou para decidir quem seria o pré-candidato da legenda ao GDF. Agora, o partido espera união da militância para chegar forte às próximas eleições
Mariana Spezia
mspezia@jornaldacomunidade.com.br
No domingo (21), a militância do Partido dos Trabalhadores foi às urnas para escolher o pré-candidato do PT ao governo do Distrito Federal. O ex-deputado e ex-ministro do Esporte Agnelo Queiroz obteve 4.656 votos, o que representa 56,21% de aprovação. Já o adversário, o deputado federal Geraldo Magela, conquistou 3.627 votos, ou 43,79%. O DF conta hoje com 35 mil filiados ao PT, mas apenas 30% são atuantes e participaram da votação. O próximo passo do partido é buscar a união da militância para formular um programa de governo forte e também buscar boas alianças para alcançar a cadeira no Palácio do Buriti. Agnelo Queiroz concorda. Para ele, a disputa foi difícil, mas ao final já havia um compromisso prévio dele e de Magela com a construção da unidade partidária. “Foi possível observar que em vários momentos isso foi colocado publicamente, inclusive no debate, que coroou esse nosso compromisso público”, garante Agnelo. O vencedor acrescenta ainda que o partido deve, obrigatoriamente, trabalhar unido a fim de tirar Brasília da crise em que ela está imersa e resgatar a autoestima do povo brasiliense. “A população quer uma mudança radical. E essa mudança radical somos nós”, avisa. A seguir, confira a entrevista exclusiva de Agnelo Queiroz ao Jornal da Comunidade.
A maioria das forças políticas do partido estava ao seu lado. Muitos apostavam na sua vitória. O senhor também já esperava por esse resultado?
Já esperava, sim, por essa vitória porque eu tinha um apoio muito forte dentro do partido. A grande maioria das nossas lideranças, dos deputados distritais, dos dirigentes das zonais do PT e também dos dirigentes partidários, sindicais, do movimento estudantil estavam ao meu lado e isso repercutiu e se traduziu justamente na militância. Eu estava confiante, mas exigiu um trabalho intenso. Foi uma disputa dura. Serviu também para mobilizar a nossa militância, debater os problemas da cidade, essa conjuntura atual, acho que nossa militância saiu fortalecida, ativa e com muita esperança. Já tínhamos uma militância aguerrida e agora ela está mais atiçada para o embate que se aproxima.
É evidente que houve um desgaste na legenda por causa da disputa interna. Como o senhor acredita que o PT vai se reorganizar para chegar forte às eleições de outubro?
A disputa, como eu disse, foi muito dura, difícil, mas felizmente ao final já havia um compromisso prévio dos dois candidatos com a construção da unidade partidária. O deputado Geraldo Magela, ao final da apuração, reconheceu a vitória e também fez este gesto de unidade que, obviamente, é amplamente apoiado por nós neste sentido de construção da união do PT-DF. Acabou a briga. Temos uma candidatura, o PT tem um candidato ao governo do Distrito Federal e nós estamos todos unidos em torno desse objetivo. Aí não é o Agnelo e, sim, o candidato do PT que saiu vitorioso nas prévias, portanto, estamos em condições agora de buscar aliados e marchar para conseguir a vitória.
O senhor pode adiantar algumas das alianças que o PT pode fazer para as próximas eleições?
A direção do PT já está em campo. Há várias conversas marcadas com os partidos do nosso campo. Faremos um esforço imediato para unir esse campo que tradicionalmente tem saído conosco como o PDT, o PCdoB, o PSB e o PRB. Queremos, ao estabelecer essas alianças, tentar ampliar a própria aliança,tendo uma base sólida e consistente, um núcleo, que tanto vai fazer a campanha como também governará junto conosco.
Como será seu programa de governo?
Depois de tudo que a nossa cidade passou, um verdadeiro constrangimento, uma humilhação junto à população brasileira e até fora porque os escândalos daqui tiveram repercussão internacional, nosso objetivo é apontar saídas para essa situação vexaminosa. O projeto do PT, junto aos nossos aliados, é a reconstrução da cidadania, dos princípios republicanos de governar, é a retomada da esperança. Para isso, precisamos fazer uma reforma administrativa radical, do ponto de vista da transparência, da honestidade, da participação da sociedade, da descentralização da administração. Faremos uma revolução administrativa sem precedentes do que já aconteceu até agora na nossa pequena experiência de autonomia. Além disso, também faremos mudanças muito sérias do ponto de vista da recuperação dos serviços públicos como a saúde, a segurança, a educação, o transporte público, mas sobretudo a questão do desenvolvimento humano, que é a política com o jovem, qualificação profissional, geração de emprego e renda e principalmente diminuir a desigualdade. Nós temos solução pra essa crise. O PT tem aliados e vamos mostrar um projeto de saída dessa crise e retomada da nossa autoestima.
O discurso é louvável, mas o senhor realmente acha que é viável conseguir trabalhar em todas essas áreas de uma forma exemplar?
Eu tenho tanta confiança, a certeza de um bom governo que vale a pena a gente fazer um enfrentamento dessa ordem. Você sabe, a situação em que vivemos hoje é a da política de terra arrasada, da desesperança. Os políticos estão com um grau de descrédito grande e então as pessoas tendem a generalizar, achar que tudo é igual, é duro para o próprio político enfrentar essa situação. Seria mais simples cuidar da nossa própria vida e não se misturar com isso, mas acho que as pessoas de bem têm que fazer a política. A nossa população merece e precisa ter resposta para isso tudo que eu falei, ou seja, tenho tanta confiança e certeza que as políticas públicas que vamos apresentar respondem a esses enunciados. Por exemplo, na saúde, nós vamos mudar o modelo de assistência, mudar a prioridade atual que hoje é toda a saúde hospitalar, vamos ter uma saúde preventiva muito forte. Há recursos no orçamento para isso e há ainda apoio do governo federal que está ávido para ajudar num projeto sério de recuperação da saúde pública. Então, o exemplo que eu dei sobre a saúde se aplica pra outras áreas. Nós vamos fazer um debate com a sociedade sobre o nosso programa de governo.
É possível resgatar a imagem de Brasília após essa crise política?
No primeiro ano de governo a gente vai recuperar completamente a parte administrativa e, no segundo ano, implantaremos as políticas nas áreas que estão mais depreciadas. Não pode mais existir mentira, promessa que não vai ser cumprida. Fazer coisas só para inglês ver é lamentável.
É possível que haja uma grande renovação na Câmara Legislativa em 2011? Como o senhor avalia essa mudança?
Eu espero que a mesma exigência e atenção que o povo vai ter em eleger o governador também tenha em eleger os deputados distritais, principalmente porque nesta crise a Câmara teve um comprometimento muito grande de muitos parlamentares envolvidos com essas denúncias. Então, nesse sentido, tenho certeza que a população fará uma renovação grande com a Câmara Legislativa. Nós não podemos, de forma nenhuma, repetir esse método que está aí, que é o método da compra, do dinheiro para votar as coisas. Isso é deplorável. Nós temos que ter uma relação com os parlamentares de prestigiá-los, de dar crédito para as iniciativas parlamentares. É muito importante eleger parlamentares que tenham compromisso público e que possam negociar as políticas públicas e os interesses públicos quando forem votar na Câmara Legislativa.
Houve algumas denúncias em relação ao seu patrimônio e ao convite que o senhor recebeu de Edson Sombra para assistir aos vídeos de Durval Barbosa. O senhor acredita em fogo amigo dentro do PT?
Eu acho que em disputas acirradas, às vezes, existem excessos. E seguramente pode ter havido aproveitamento de pessoas de fora para poder desgastar a minha imagem porque não interessava que eu ganhasse as prévias. Infelizmente, como a intenção era me atacar, fizeram uma simples conta aritmética de somar os rendimentos de dois impostos de renda, o meu e o da minha esposa, para poder fundamentar a denúncia. Já esclareci tudo. Tenho o nada consta da Receita. Minhas declarações já estão todas processadas e definitivas, não tem nada pendente. Enfim, esse é o esclarecimento que dei à população de forma clara. Estou bem tranquilo. Em relação a conversar com as pessoas, eu converso mesmo como político. Me interesso pela cidade e por qualquer denúncia que possa prejudicar a população do DF. Não afirmo que essas denúncias tenham vindo de dentro do partido, mas podem ter sido usadas internamente na disputa, sim. A denúncia saiu exatamente uma semana antes da prévia, a toque de caixa, com características claras para poder influenciar na eleição. Mas felizmente isso está esclarecido, apaziguado e nós estamos dando uma investigada séria da onde veio isso. Tenho certeza que muito cedo virá a tona.
As acusações podem aumentar antes das eleições. O senhor está preparado para isso?
Estou bem preparado. Evidente que qualquer tipo de ataque será respondido a altura e com muita firmeza. Eu dou um boi para não entrar numa briga, mas dou uma boiada para não sair dela.
Se o Agnelo Queiroz for eleito o novo governador do DF, o que mudará?
Nós vamos iniciar os próximos 50 anos fazendo um governo voltado para quem construiu os primeiros 50 anos.
Política
Agnelo Queiroz, Eleições 2010, PT