Cachorro caído de mudança em dia de chuva
A comparação é desproporcional, mas faz lembrança. A atitude do deputado distrital José Antônio Reguffe (PDT) de devolver ao partido a sua candidatura ao Governo do Distrito Federal, durante discurso no plenário da Câmara Legislativa, lembra em parte o ato desastrado do ex-presidente da República Jânio Quadros, que renunciou ao Palácio do Planalto esperando ser reconduzido no braço do povo. Jânio desestabilizou o regime democrático e deu a oportunidade para os militares tomarem conta do governo.
Por enquanto o ex-pré-candidato do PDT, Reguffe não vai desestabilizar nada. No máximo, causou certo constrangimento ao seu partido. O que o deputado distrital esperava era que a legenda – com a faca no pescoço -, viesse a público e formalizasse, novamente, que Reguffe é mesmo o nome da sigla para as eleições de 2010. Reguffe quer ser candidato. Ainda não moveu uma palha para fazer campanha e já aparece com nada despreziveis 6%.
O problema é que o hoje ex-pré-candidato não combinou o ato com as principais lideranças do PDT, que ficaram sabendo do discurso de renúncia pela imprensa, trazendo um mal estar interno nas hostes pedetistas. Faltou tato político e sobrou ansiedade. Até o fechamento deste artigo, nenhum líder pedetista saiu em defesa de Reguffe.
Os motivos que levaram Reguffe a renunciar à sua pré-candidatura expuseram as negociações do PDT, e que podem até ser legítimas, mas possuem desvio de conduta. A situação é a seguinte: o diretório regional do PDT aprovou em junho a indicação de Reguffe e de Cristovam como pré-candidatos ao GDF e ao Senado, respectivamente. Apesar da iniciativa de lançar um concorrente para a reeleição do governador José Roberto Arruda (DEM), o partido manteve os cargos no governo. Ao mesmo tempo em que apoia o governo Arruda, flerta com uma coligação política com o PT visando às eleições.
Onde estiver, Leonel Brizola deve estar reprovando o rumo que o partido tomou. Também, acho, que muitos dos atuais pedetistas não estão muito preocupados com isso. O PDT abandonou sua essência há muito tempo, e hoje é mais um partido na disputa tresloucada de poder que tomou conta do país desde a chegada do PT à Presidência da República.
A aposta de Reguffe é que o partido volte atrás e mantenha a sua candidatura. Isso seria o mais coerente para ambos os lados, mesmo que daqui a sete meses, quando junho chegar e acontecem as convenções para definir candidaturas e coligações, o PDT traia novamente seu candidato, se aboletando no colo de outra chapa.
A saída de Reguffe da disputa é comemorada por petistas e arrudistas, e lamentada por rorizistas. O parlamentar é muito forte nas classes média e alta, onde predominam eleitores de Arruda e do Partido dos Trabalhadores. O discurso do novo e do ético é elogiado por grande parte da população e rivaliza com o da legalidade do atual governador. Nas camadas mais pobres da população, onde o ex-governador Joaquim Roriz (PSC) possui maior densidade, o discurso de Reguffe soa meio incompreensível.
Reguffe costuma falar em seus discursos que está decepcionado com o modo de fazer política e que já pensou em abandonar a carreira pública. O que Reguffe ainda não entendeu, quando fez os discursos entregando a sua candidatura, é que o PDT e Cristovam passam pelo dilema da sobrevivência. Estão entre o medo de ficar com Arruda e perder os votos da esquerda ou seguir com o PT e ser traído e abandonado no meio do caminho. Se seguir carreira solo, teme minguar nos votos e ficar sem participação (leia-se cargos) num futuro governo, seja vermelho, verde ou azul. Azul, sim, já que Cristovam chegou a conversar até com Roriz.
O deputado Reguffe é hoje o melhor nome do partido. É um fenômeno eleitoral e possui um longo futuro político com seus 37 anos de idade. É um excelente nome ao Senado, mas deu azar de ter Cristovam Buarque como companheiro de legenda. Deu sorte também, pois poderá ser o seu herdeiro na política. Se o partido mantiver a sua candidatura, Reguffe terá dificuldade de vencer uma disputa que será muita acirrada e com um jogo pesado e sujo, mas que vai dar um trabalho, isso vai. Se não der em 2010, o deputado pode apostar em 2014, quando não terá Roriz nem Arruda na disputa. Enquanto isso não se decide, o PDT caminha pela política como um cachorro caído de mudança em dia de chuva.

Cearense de Fortaleza, é diretor de Redação do Grupo Comunidade de
Comunicação - editor do Jornal da Comunidade, Jornal Coletivo e do portal Comuniweb.