Uma briga nos bastidores passa despercebida do grande público brasiliense. Deputados distritais e integrantes do primeirão escalão do GDF disputam o que consideram o emprego dos sonhos. O salário é de R$ 22 mil, o mesmo dos desembargadores do Tribunal de Justiça, podendo atingir o teto do funcionalismo público federal, que é de R$ 24,5 mil, com incorporações de vantagens adicionais por tempo de serviço, como quinquênios e abonos. Trata-se de cargo vitalício, com possibilidade de aposentadoria com vencimento integral. As férias são duas vezes por ano. Mortoristas, assessores, ajuda de custo, etc. Além disso tudo, o ocupante terá foro especial para responder por eventuais crimes no Superior Tribunal de Justiça (STJ) e um grande poder nas mãos. O cargo: conselheiro do Tribunal de Contas do DF.
Candidatos surgem todos os dias para as duas vagas que devem ser abertas em breve. A indicação é do governador José Roberto Arruda (DEM), que após pouco mais de dois anos e meio de governo não indicou nenhum conselheiro. E pretende não errar no nome. Mas, o que faz um conselheiro de importante e porque o cargo é tão cobiçado. A função principal é o controle externo do Executivo. Pode barrar licitações importantes por um menor detalhe. Analisa as contas do GDF e, se não forem aprovadas, o governador do momento pode ter fortes dores de cabeça.
O primeiro assento estará vago até 3 de outubro. A data tem uma explicação: o atual presidente do TCDF, Paulo César Ávila, pretende sair do tribunal a tempo de não perder o prazo para se filiar a um partido político. Ele vai disputar uma vaga de deputado distrital nas eleições de 2010. Em abril de 2010 será a vez do conselheiro Jorge Caetano se aposentar. Ou seja, Arruda terá a chance de indicar duas das sete vagas da composição do plenário da corte responsável pela fiscalização de todas as despesas do Executivo.
Mas o governador enfrenta problema. A Câmara Legislativa e o Ministério Público de Contas também reivindicam o poder de escolha. Uma súmula do Supremo Tribunal Federal (STF) estabelece que entre os sete conselheiros, quatro são indicação da Assembleia Legislativa e três devem ser nomeados pelo chefe do Executivo. A escolha do governador deve respeitar critérios. Ele deve indicar um representante do Ministério Público, um auditor e tem uma chance de indicar alguém de sua preferência, por livre escolha. A ordem das nomeações, no entanto, não é consensual. Na última nomeação, da ex-deputada Anilcéia Machado, houve uma disputa. O Ministério Público do DF e o Ministério Público de Contas reivindicaram o cargo e o caso até hoje não tem decisão definitiva. Outros dois ex-distritais também fazem parte do conselho: Renato Rainha e Manoel de Andrade.
Deputada licenciada e atual secretária de Desenvolvimento Social, Eliana Pedrosa (DEM) não esconde que vai brigar pela indicação, para si ou para alguém do seu grupo político, como os deputados Rôney Nemer (PMDB) ou Benício Tavares (PMDB). O mais certo é que ela mesmo seja a candidata. Para isso, já prepara o irmão para disputar uma cadeira de distrital em seu lugar. Pretende, com isso, ampliar o poder.
Arruda também não perde tempo e intensificou as conversas para tentar convencer os parlamentares — os da base e até os da oposição — a votarem em seu candidato: o chefe de gabinete da Governadoria, Domingos Lamoglia. O problema é que os parlamentares afirmam que a vez de indicar é deles e torcem o nariz para a ideia. O poder de convencimento do governado terá que ser muito forte. Do ponto de vista estratégico, é muito mais negócio para os distritais elegerem um parlamentar, porque além de garantir um representante no TCDF, a Câmara exclui um concorrente de peso nas eleições. Com o cenário não muito favorável aos planos de Arruda, e para não haver uma desgastante queda de braço, os próprios deputados já falam em nomes alternativos ao de Lamoglia e ao de Eliana. Um deles seria o do deputado licenciado e secretário de Justiça, Alírio neto (PPS).
Caso Lamoglia não emplaque na vaga de Ávila, ele poderia concorrer em abril com a saída de Jorge Caetano, que ocupa vaga de livre escolha do chefe do Executivo, vai se aposentar compulsoriamente porque completará 70 anos. Aí, Arruda vai ter que comprar uma nova briga. A avaliação é que esta é uma vaga do Ministério Público, tendo como candidata natural a procuradora-geral do Ministério Público de Contas do DF, Márcia Farias.
Mesmo com os impecilhos das regras previstas em lei, nada impede que Arruda faça um acordo político com sua base na Câmara Legislativa para a nomeação de Lamoglia já em setembro e garanta o seu primeiro indicado ao “emprego dos sonhos”, ao mesmo tempo que garante um fiel aliado no TCDF.
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